Festa dos Reis: tradição, cultura e fé 

Dom Leomar Antônio Brustolin

Bispo Auxiliar de Porto Alegre

Nas festas dos Santos Reis, em 6 de janeiro, homens e mulheres, jovens e crianças saem pelas ruas cantando e visitando as casas, procurando romper com a rotina e opacidade dos dias, marcando o tempo e o lugar com a cultura do encontro, da amizade e da fé. Cantam, rezam, dançam e comemoram. O Terno de Reis é um patrimônio imaterial da cultura brasileira, resultado da influência portuguesa e cristã, e traduz importantes dimensões que estão no imaginário da fé e da cultura das pessoas.

Talvez nem todos aprofundem muito o significado do que celebram, apenas sabem que receberam uma herança que não pode se perder. Essa manifestação cultural é também expressão de um fato histórico que precisa ser recordado, atualizado e anunciado às futuras gerações. Em tempos de desorganização histórica, quando a memória se perde e o futuro não interessa, cabe ao presente resgatar as origens para garantir novas perspectivas. É fundamental recuperar o dado fundante de nossa cultura para entendermos quem somos e o sentido de nosso viver.

Após a festa do  Natal, o Oriente e  o Ocidente cristãos celebram, desde a antiguidade, a Epifania de Cristo. A palavra epifania tem origem no termo grego “epiphaneia”, que significa manifestação. É a festa de  Cristo, luz do mundo, que manifesta-se não apenas aos pastores de Belém, mas a toda humanidade, representada pelos magos.

O Evangelho de Mateus relata que magos vindos do Oriente procuravam o rei dos judeus, cujo nascimento fora anunciado a eles por uma estrela. Eles vêm de diferentes caminhos e anseiam pela criança divina. Representam o ser humano de diferentes raças e culturas, de diversas religiões e costumes e pretendem descobrir o mistério da vida. Eles não são mágicos, mas sábios que seguem as indicações das estrelas.

Admirar as estrelas diante da imensidão do céu e examinar com atenção o ritmo e a harmonia é o início do saber humano. O céu regula a terra: estações, meses, dias, horas; determina o trabalho e o descanso, o semear e o colher. Não se trata de fazer adivinhações ou previsões futurísticas, mas de ler os sinais dos tempos, que indicam novidades na vida, na história e nos cosmos. Os magos são sábios que enxergam mais longe. Eles não detiveram seu olhar na opacidade da realidade, pois foram capazes de transcender.

Conforme conta a tradição, os magos foram a Belém levando seus presentes. O relato da visita não traz muitos detalhes. Com o tempo, foram acrescidos dados sobre essas três figuras. Primeiro se acreditou que eram sábios astrônomos, membros da classe sacerdotal de alguns povos orientais, como caldeus, persas e medos. A partir do século sexto, porém, a tradição passou a considerá-los reis e lhes deu nomes, atribuindo a cada um algumas características próprias. Assim, Melquior seria o representante da raça branca, europeia; Baltasar representaria a raça amarela, habitante da Ásia; enquanto Gaspar pertenceria à raça negra, proveniente da África.

Quando os magos chegam diante de Jesus ajoelham-se, em sinal de adoração à divindade e oferecem-lhe ouro, presente digno de reis; incenso, recordando que o menino é sacerdote; e mirra, perfume usado na preparação dos defuntos no Oriente. Esse curioso presente recorda que a criança, apesar de tudo, deveria sofrer e morrer, e pela sua morte a humanidade encontraria nova vida, nova luz.

Com os magos de outrora, é preciso aprender a ler os sinais de nosso tempo, perceber as luzes no caminho, reconhecer a Verdade que se manifesta humilde e generosa e, enfim, oferecer nossos presentes de vida, amor e doação. Afinal, a luz de Cristo continua iluminando os caminhos da humanidade, mas é preciso sair pelas estradas guiados pela estrela da fé.

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